Neste planeta somos apenas inquilinos temporários, todos nós
temos grandes missões a cumprir, a primeira delas é governar satisfatoriamente
os nossos pensamentos no que se refere à arte de viver, pois o grande segredo
da vida está na boa administração da arte de viver. Segundo Vladimir Nabokov,
na escala das medidas universais há um ponto em que a imaginação e o
conhecimento se cruzam, um ponto em que se atinge a diminuição das coisas
grandes e o aumento das coisas pequenas: é o ponto da arte. Viver é a arte da
reinvenção. Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de
ferro.
Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma
permanente reinvenção de nós mesmos - para não morrermos soterrados na poeira
da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar
dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é
preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece:
porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o
jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma
essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito
ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do
cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o
lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro
pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na
frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora
da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e
da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para
um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se
abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas.
Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as
máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do
superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil
distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores
de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar:
quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as
obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a
prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono,
o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho:
é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente
respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso
pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os
desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos
questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem
compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o
dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades
de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso
olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma
ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí
apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente
reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é
fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de
espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser
brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para
que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança;
qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas, mas
sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim.
Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a
si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e
nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de
manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor
que afinal se conseguiu fazer. (Lya Luft)
O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até ao
ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é - ou deveria ser -
a mais elevada forma de arte. (Charles Chaplin)
A arte de viver é mais parecida com a luta do que com a dança,
na medida em que está pronta para enfrentar tanto o inesperado como o
imprevisto e não está preparada para cair. (Marco Aurélio)
Abraços e muita paz!
Neste planeta somos apenas inquilinos
Reviewed by Luís Eduardo Pirollo
on
janeiro 21, 2015
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Eloiza Martins De Oliveira Miranda · Quem mais comentou · Faculdade "Auxilium" de Filosofia, Ciências e Letras de Lins
ResponderExcluirSim, estamos neste mundo de viagem, um dia voltaremos para o mundo espiritual. Viver é uma arte, um desafio, para nosso crescimento Moral e Espiritual. Lindo texto. Que sua caminhada seja repleta de artes !!
Olá, minha querida amiga Eloiza Martins De Oliveira Miranda!!!
ExcluirVerdade, estamos aqui de passagem, um dia voltaremos para a vida espiritual e tomara que possamos levar um bom crescimento.
Valeu, minha querida amiga, fico muito feliz com sua presença, apoio e carinho, obrigado!!!
Desejo que faça uma boa viagem pela vida!
Abraços e muita paz!!!